Bibliofilia: Amor por livros e por ler. O Bibliófilo ama ler e sente devoção pelos livros, colecciona-os e admira-os.

20/06/2013

Guia Kindle para Totós - parte I


Oh não, outro post sobre o kindle.
Eu sei, eu sei, muita tinta (electrónica ou não) já correu acerca de e-readers e e-books, e provavelmente para a maioria dos leitores este post traz pouca coisa de novo. Mas na semana passada coube-me a missão de converter um resistente a e-books num kindle-lover. Não que tenha sido um processo difícil, mas enquanto explicava tudo o que sei sobre e-books a alguém que quase nada sabia, dei por mim sem saber como organizar e melhor explicar tanta informação. A verdade é que hoje em dia, com tanta informação na internet, é por vezes difícil filtrar essa informação e começar totalmente do zero sem se ficar confuso. 

Para os info-excluídos como um dia fui, aqui fica uma espécie de guia "explica-me como se eu tivesse 5 anos". Não sendo nenhuma autoridade no assunto dos livros digitais, este post é basicamente um resumo da aprendizagem que eu própria levei a cabo, e sem dúvida que muita coisa ficará por dizer ou por corrigir, e convido-vos a fazê-lo. Falo do kindle, porque foi o meu equipamento de eleição, mas naturalmente alguma informação aplica-se a e-readers em geral.


Parte I





Parte II









Começando pelo início... 

1. O que é um e-book? Livro electrónico, ou livro digital, inicialmente a sua definição consistia na versão digital de um livro impresso. Hoje em dia existem livros que são publicados em formato digital sem nunca terem sido impressos, alargando a definição a  publicações de livros em formato digital de obras textuais ou gráficas, que são lidos através de um dispositivo electrónico (tradução livre da wikipedia).

(fonte)

Se ganhasse um livro de cada vez que alguém me pergunta se os e-books que leio são digitalizações de livros impressos, provavelmente já teria mais livros na minha estante do que e-books (não tenho!). Apesar de existirem livros digitais que são meras digitalizações, essa realidade está actualmente ultrapassada quando falamos de e-books comerciais de obras facilmente acessíveis. Ainda se digitalizam livros, nomeadamente publicações antigas, edições históricas e raras, mas arriscaria dizer que a maioria dos e-books que são lidos são fruto de conversões. Essas conversões podem ser levadas a cabo através de digitalizações que depois são submetidas a softwares que convertem as imagens em texto; ou simplesmente copiadas e inseridas manualmente como qualquer outro texto. Publicações actuais, cujo próprio livro impresso existe em formato digital, necessitam meramente de converter o texto num formato passível de ser lido num e-reader.





Essa  conversão implica técnicas específicas de paginação, formatação, inclusão de índices e hiperligações e introdução de dados descritivos digitais da obra (metadados). Em adição à informação digital básica que constitui um e-book, muitas edições começam a incluir conteúdos extra, como imagens, hiperligações específicas na internet, etc.



2. Adquirir e-books. Como seria de esperar, os e-books são adquiridos online. Cada um dos grandes fabricantes e vendedores de leitores digitais está associado a um catálogo online de livros (físicos e digitais). Mencionando os principais, a Amazon vende o seu Kindle, a Barnes & Noble o Nook, e em Portugal a Fnac vende o Kobo. Resumindo a aquisição de livros em 3 opções:





2.1. Adquirir livros utilizando a conta no respectivo site e comprar os livros online, sendo estes entregues via wireless assim que se ligar o leitor à internet, por WiFi ou 3G. Há livros pagos e livros gratuitos, e os preços vão desde os 99 cêntimos  ao preço de um hardback, milhares de títulos à distância de um clique.

2.2. Utilizar catálogos de livros gratuitos como o Projecto Gutemberg, que disponibiliza gratuitamente e em diversos formatos livros cujos direitos de autor já pertencem à Humanidade, as chamadas obras em domínio público. Este site conta já com 4 décadas de funcionamento e foi um dos pioneiros na divulgação e liberalização dos livros digitais. 

2.3. A internet. Certo, ambas as opções anteriores fazem parte da internet, mas essas são as opções legais e oficiais. Não preciso de elaborar, pois não? Não tenho na minha posse dados estatísticos precisos, mas arrisco afirmar que mais de 90% dos livros que procuro em inglês se encontram facilmente perdidos nos meandros da internet. À distância de vários cliques e alguns minutos de espera, conversões de melhor ou pior qualidade, mas é uma opção popular. 



Um aparte em relação aos preços dos e-books 
Pelas razões enumeradas mais acima, nem sempre a versão digital de uma obra é a mais barata, pelo contrário e indo contra tudo o que parece lógico ao leitor/consumidor. Não tenho conhecimento de causa suficiente na indústria para afirmar o porquê, mas neste artigo do CEO de uma editora, ele afirma que os custos físicos de impressão e distribuição dos livros impressos não representa uma fatia tão grande das despesas de produção de um livro como se poderia pensar. Segundo ele, a publicação de um e-book mantém as mesmas despesas associadas a um livro impresso (direitos de autor, traduções, revisões, design gráfico, marketing, despesas legais, etc, etc), com a adição de despesas consideráveis com a "produção digital" que referi acima, desenvolvimento dos ficheiros em termos de compatibilidade com os diversos modelos de e-readers, adição de tecnologia DRM e provavelmente mais. 
Há quem defenda que mesmo tendo em conta todas estas despesas, os e-books poderiam ser mais baratos, caso as distribuidoras e editoras baixassem a margem de lucro. Muita coisa se poderia dizer em relação aos lucros em e-books da gigante Amazon, por exemplo, mas isso fica para outra altura. Quer se acredite quer não nas explicações oficiais, a verdade é que, de modo geral, os e-books não são muito mais baratos (são algumas vezes mais caros) do que as suas versões impressas. 



3. Formatos e conversões.
Existem dezenas de formatos de e-books, optimizados para diferentes leitores e tipo de livros. As diferenças técnicas entre eles são extensas, mas pouco relevantes para o utilizador comum de e-readers, por isso vou referir-me apenas aos que considero mais importantes.




3.1. PDF. De modo geral, o formato PDF é o mais o conhecido, aquele com o qual a maioria de nós está mais familiarizado. Há anos utilizado para transportar e partilhar documentos, este formato não editável é de certa forma o menos interactivo e menos prático quando se trata de um livro. É ideal para documentos como artigos científicos e jornalísticos. Apesar do seu cariz estático não favorecer a leitura em e-readers, o facto de poder ser lido em quase todos os equipamentos móveis e computadores (incluindo o Kindle, Kobo e Nook) constitui uma enorme vantagem.

3.2. Mobi. Formato exclusivo do Kindle da Amazon (na verdade o formato Amazon engloba vários ficheiros e uma série de formatos que foram evoluindo desde os primeiros kindles, mas por comodidade e porque na verdade não faz diferença chamemos apenas .mobi)

3.3. EPub. Formato de e-books mais global e versátil actualmente. Com a excepção do Kindle da Amazon, (quase) todos os e-readers lêem formato .ePub.

3.4 Converter e-books. Tendo o software adequado, é virtualmente possível converter qualquer formato de e-book noutro. No entanto, para o leitor comum que pretende converter um livro para o seu leitor, os ficheiros deverão ter condições específicas para que a conversão resulte num livro aceitável. É, por exemplo, possível converter .pdf para .mobi, no entanto é provável que o livro fique desconfigurado, uma vez que são formatos muito diferentes e conteúdos organizados em princípios distintos. Uma maior probabilidade de sucesso surge na interconversão entre formatos .mobi e .epub, mais parecidos, e é algo que leitores pelo mundo fora fazem com facilidade.



Um dos programas mais utilizados para converter ebooks é o Calibre, mas é muito mais do que um conversor de e-books. Com o Calibre posso manter uma biblioteca sincronizada com o meu kindle, organizar os livros em colecções, adicionar e alterar os metadados dos livros, e muito mais. Existem plug-ins que adicionam funcionalidades ao software, nomeadamente mecanismos específicos de remoção de DRM que entram em cena quando nos surge isto:

(fonte)


4. DRM: O que é, implicações, como ultrapassar.

Digital Rights Management (Gestão de Direitos Digitais em português), vulgo DRM, esta tecnologia é controversa desde o início. Criada para controlar a cópia e distribuição de obras digitais após a sua compra, alguns defendem que a sua eficácia anti-pirataria é reduzida, ao mesmo tempo que constitui um atentado à livre circulação de conhecimento e propriedade intelectual. Todos nos lembramos, algures na década dos anos 2000, de quando passámos a não conseguir fazer cópias dos CDs de música que comprávamos ou dos jogos de PC emprestados pelos nossos amigos. A infame mensagem "This disk cannot be copied" chegou a causar-me crises de ansiedade por uns tempos, até eventualmente surgir uma solução obscura para adquirir o mesmo produto por outras vias.
Tem sido este o caminho dos sistemas de DRM, como quase tudo no mundo da internet, é ultrapassado, reinventado, até à seguinte quebra.

O que significa para os e-books? Basicamente, o mesmo que significa para qualquer obra digital comprada online, seja cinema, música ou livros. Actualmente, quase todos os livros vendidos online são portadores de tecnologia de DRM. As tecnologias variam, mas as implicações são gerais:

- A compra do e-book implica o seu envio para os dispositivos associados à conta, com um número limite de cópias/dispositivos;

- A cópia e/ou conversão para outro formato ou dispositivo estão bloqueadas (nada de emprestar livros aos amigos sem partilhar a própria conta);

- O distribuidor tem o poder e o direito legal de, a qualquer momento e quando o considerar justificável, aceder remotamente ao dispositivo e remover as obras adquiridas (já aconteceu o próprio dispositivo ser bloqueado ao utilizador, no mais-ou-menos recente caso Amazon-gate, e a Barnes & Noble reserva-se o direito de bloquear o acesso aos e-books se o cartão de crédito associado à conta caducar, mesmo tendo em conta que os livros já foram pagos);



(fonte)
Em suma, pode-se afirmar que ao comprar um livro com DRM, o livro não é efectivamente meu, pois pode ser-me retirado pelo vendedor a qualquer momento. Tecnicamente e conforme descrito nos seus termos e condições que ninguém lê, a Amazon nem sequer vende e-books, vende o acesso ao mesmo, e esse pode ser revogado. Mas mais uma vez, quando há vontade e talento, surgem soluções, e para combater esta noção tão estapafúrdia para criaturas que vivem do sentimento de posse de livros, a internet ajuda. 

Existem diversos tipos de DRM e, numa era de tecnologia sempre em mudança, (acho que) todos podem ser ultrapassados de alguma forma, se se souber como. Basta uma rápida pesquisa na internet para encontrar soluções acessíveis para o leitor que deseja partilhar um livro com um amigo ou simplesmente fazer uma cópia de segurança de uma obra pela qual pagou. 

Há quem diga que é uma questão de tempo até o DRM em e-books ser abandonado, e que seria uma medida positiva para a indústria, com vantagens para leitores, editoras e autores. A gigante editorial Tor anunciou no ano passado que todos os seus e-books seriam vendidos sem tecnologia DRM, e um ano depois, os resultados são positivos. Em Portugal, foram aprovados dois projectos de lei que se pretende que venham a constituir a base legal para permitir que utilizadores façam cópias dos seus conteúdos digitais, e impedir que livros em domínio público sejam protegidas por DRM.



Do outro lado da barricada, um instituto alemão está a desenvolver uma nova tecnologia de DRM que em vez de procurar impedir a cópia, altera activamente o conteúdo do texto (!) de cada vez que o ficheiro é copiado, de forma a poder rastrear o utilizador original, que partilhou a obra. Desta forma o utilizador pensará duas vezes antes de partilhar o ficheiro, com receio de ser identificado 


Pessoalmente, creio que irão surgir sempre formas de contornar as limitações de circulação de obras, e que de facto o livre acesso aos conteúdos digitais pode significar ganhos consideráveis para a indústria. Até lá, socorrer-nos-emos da internet quando for preciso. 



(Continuação aqui)

5 comentários:

  1. Muito, mas mesmo muito interessante, sendo kobo lover já tinha conhecimento destas informações, no entanto aprendi uma ou outra coisa. É um óptimo post para passar aos amigos que ainda torcem o nariz aos ereaders.

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    1. O objectivo é converter os inconvertíveis! :)

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  2. Excelente artigo! Parabéns ao Blog cada vez melhor!

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  3. Fantástico post! Até compartilhei na nossa fan page do Facebook, achei super útil!

    www.facebook.com/elasleram

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